Os Performers
escrevo para te dizer que hoje li numa carta íntima publicada depois que o autor morreu (não importa quem) sobre a importância de "dois malditos que se reconhecem", e lembrei de ti no clip, de cabelo máquina 0, na foto com os dentes desnivelados, de como procuro uma espinha nova ou um sinal novo na tua pele, a cada reencontro, pra te re-reconhecer. a largueza das costas e a dureza do gesto. belo, não? se dá, deu, dará, daria, dava, desse, dera certo, é bobagem, esse monte de tempos de verbo é só pra deixar as coisas propensas às tintas fortes da ficção. o tempo é um só. se acabar amanhã, ok, crise vem, crise passa, semana que vem na torre encontra-se outro. o mundo é assim também, como eu, você. só que o que dura em mim uma semana, para que eu esqueça tua camisa de algodão vagabundo e vá procurar na semana seguinte um encontro com outro maldito, para o mundo dura mil anos. pudera, duro oitenta anos no máximo, já quanto ao mundo, a ciência sempre aumenta a probabilidade de idade, já chegou-se aos milhões. é uma questão de proporcionalidade, equivalência: eu, o mundo; oitenta anos, milhões de anos. semana que vem minha crise será outra. daqui a quinhentos anos a crise do mundo será outra. a gente muda de utopia conforme o jeans, e o que me desnuda entre um jeans e outro eu chamo arbitrariamente de crise. abaixe a luz. sem dramas, né? a espécie sobreviveu às cruzadas, à peste negra, ao século xx, aos ismos políticos, aos aliados, ao eixo, às ditaduras, aos porões, à aids, à família bush, à gripe suína, só para que dois malditos se encontrassem. avec passion, toujour. pero, sem dramas. ok? always.
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