Cantar é coisa de mulher, 3

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Eu sempre saía dos restaurantes japoneses sete quilos mais gordo e o Atchim com dezenove metros a menos de diálogo. Ele achava que eu realmente adorava restaurantes japoneses. Nunca entendi porque as pessoas acham que nós, os vegetarianos, adoramos comida japonesa.
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-Peixe dá em árvore?, fiz a clássica pergunta ao Atchim para que ele entendesse que quem não come carne não come peixe. Nesse instante talvez ele tenha entendido porque eu sempre saía dos restaurantes japoneses arrotando arroz e com a testa oleosa de tanto tempurá.
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O saquê soltava a língua de Atchim. Atchim é da parte da humanidade que tem a necessidade de falar, tem horror ao silêncio.
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-Tá chato?, Atchim me perguntava às vezes, quando eu ficava em silêncio olhando para o seu braço, tentando achar a linha mais fina de contorno que separava Atchim da cidade, dava-lhe autonomia e um lugar onde ele pudesse ser esse alguém de tatuagens certas.
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-Não, claro que não... tava só pensando, eu respondia, e Atchimemendava um assunto e gastava mais cinquenta e sete metros de frases e voz.
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Atchim procurava mais uma lista de objetos de época, para mais uma de suas direções de arte. Eu procurava fotos antigas de times de futebol, para mais um trabalho de arte. Ficamos soltos na feira da Benedito para nos encontrarmos depois, cada um dando espaço ao universo de procura do outro, mas acabamos nos cruzando ou encontrando por acaso, numa rua paralela, em frente à banquinha de brinquedos antigos, boquiabertos com a possibilidade triangular, inédita em nossas vidas, de ter um ventríloquo.
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