Cantar é coisa de mulher, 2


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-Não, claro que não, não te acho fora de moda... apenas... sei lá...acho teus inimigos grandes demais.
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Mestre não podia entender. Quem tem sonhos não pode compactuar com quem vê, neles, um mínimo de impossibilidade.
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-Há, há sim um descompasso, Mestre. Admiro teus sonhos, putz, você nem sabe o quanto. Talvez porque eu não tenha nenhum... Mas...
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É que eu olhava para o corpo franzino do Mestre, sua mente lotada de teses e conceitos em círculo, mordendo o próprio rabo, aquela barba rala uspiana, e achava-o adequado somente a 1950.
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-Queria que você fosse o Fred Astaire, eu disse bêbado e o Mestre riu para dentro, talvez sem entender.
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Mestre possuía um jeito único de distribuir o peso das injustiças do mundo na trama dos ossos. Equilibrava tudo com elegância e, quando abaixava para escolher os LPs no chão, deixava cair tudo, tudo, tudinho, ficava só o salto da costela.
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-Não Mestre, não sou conformado. Apenas não tenho vontade de lutar nessa direção. Sou abelha operária, oh, minha querida abelha soldado...
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Mestre é vital para a humanidade. O dia em que ele perceber isso, que mesmo sem os sonhos realizados ou as revoluções feitas ele ainda é vital para o mundo, talvez ele entre em paranóia, pois deve ser difícil perceber que você passou a vida lutando por algo impossível e, a luta, já era o objetivo final, já alterava para melhor a pouca área alterável do mundo.
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-Sabe o que eu mais admiro em você, Mestre?... Hã? Não, que idealismo o caralho... o que eu mais admiro em você é como decora tão facilmente letras de música.
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